8# MUNDO 84.15

QUEM SO OS BRASILEIROS EM GUERRA
Atrados por questes ideolgicas ou pela excitao de estar em uma zona de conflito, PMs, motoboys, estudantes e ativistas polticos se transformam em combatentes na distante Ucrnia
Yan Boechat, texto e fotos

Rafael Miranda no sabe ao certo se foram dois, quatro ou seis metros. S tem certeza de que voou. O deslocamento de ar provocado pelo morteiro que explodiu a poucos metros de onde ele estava arremessou seu corpo com violncia. Rafael caiu batendo com a cabea sobre o cabo do rifle AK-74. No desmaiei, no senti dor, no ouvi nada, conta ele. S percebi que algo estava errado quando tentei correr para me jogar na trincheira. Apesar do esforo, ele no conseguia se movimentar. No sentia qualquer coisa da cintura para baixo. Achei que os estilhaos do morteiro tinham me partido ao meio, que eu estava sem as pernas. Rafael j havia visto cenas semelhantes: pessoas com ferimentos graves, estraalhadas, mas sem dor por conta da brutal descarga de adrenalina. Fiquei com medo de olhar para minhas pernas, diz. Coloquei a cabea sobre o rifle, fechei os olhos e esperei que uma bomba me acertasse. Tinha certeza que ia morrer ali. 

AO - O ex-segurana privado Rodolfo Magaiver realiza treinamento a poucos quilmetros do front de batalha em Pervomias'k, Leste da Ucrnia

Tudo aconteceu muito rpido. Fazia frio na manh de 18 de janeiro e as ruas da pequena cidade litornea de Shirokino, no Sudeste da Ucrnia, estavam cobertas pela neve da noite anterior. Rafael e dezenas de outros soldados estrangeiros da Unit Continentale, um batalho formado por voluntrios de diferentes pases, avanavam sobre o centro de Shirokino. O ataque era uma etapa da nova tentativa de se aproximar de Mariupol, uma cidade de 500 mil habitantes fortemente defendida pelas foras armadas ucranianas, distante apenas 20 quilmetros dali. Se conquistassem Mariupol, os rebeldes pr-Rssia ampliariam ainda mais a faixa de domnio que haviam assegurado no Leste da Ucrnia e teriam acesso a um dos mais importantes parques siderrgico do pas. Estava fcil, entramos na vila sem resistncia, relembra Rafael. Mas a, uma sirene comeou a tocar. At rimos. Duvidvamos que abririam fogo contra a cidade, contra os civis que estavam nos pores das casas. A sirene ainda ecoava quando a tempestade de msseis e morteiros despencou.

Resignado, Rafael seguia deitado sobre o rifle, esperando pela morte. Foi quando sentiu um tranco no pescoo e ao abrir os olhos j se viu dentro da trincheira. Tinha sido salvo por um soldado russo. S ento, Rafael tomou coragem de olhar para as pernas. Estavam l, intactas, sem ferimentos ou qualquer marca de sangue.  sua volta, soldados feridos gritavam, outros pareciam mortos. Pela primeira vez senti pavor, conta Rafael. Percebi que havia sido ferido nas costas e tive medo de ter ficado paraplgico. S pensava em como ia contar para minha me o que tinha acontecido comigo to longe de casa.

Rafael foi atingido por dois estilhaos de morteiro. Um deles perfurou seu pulmo esquerdo. O outro, pelo que ele conseguiu entender dos mdicos russos que o atenderam, alojou-se a poucos milmetros de sua espinha dorsal. Fui operado duas vezes, fiquei internado por quase dois meses e j consigo andar, ainda que mancando, diz ele, sentado na cama de um quarto de hospital em Donetsk , no dia em que se preparava para receber alta. Foi difcil, faltou comida e o tratamento no  o melhor, mas me sinto feliz. Estou aqui para lutar contra o imperialismo americano, diz ele. Um dos colegas de quarto, notando a animao, sada Rafael com o jargo antifascista da Guerra Civil Espanhola: No passarn!.

At seis meses atrs, Rafael jamais havia participado de um treinamento militar. Nem tiro com fuzil tinha dado em seus 26 anos de vida. Fez cursos de segurana privado e, quando mais novo, sonhava em se tornar boxeador profissional. Disputou apenas uma luta, e perdeu. Natural de Mau, na regio do ABC paulista, decidiu ir para a Ucrnia se aliar aos rebeldes no final do ano passado, logo aps perder o emprego de segurana em uma empresa de So Paulo. Para sobreviver, passou parte da segunda metade de 2014 trabalhando como motoboy. Sabe quando chega aquele momento em que nada d mais certo, que voc s quer sumir, desaparecer? Pois , eu cheguei nesse momento. Rafael acredita que h um compl formado por banqueiros, grandes empresas e magnatas judeus para impor ao mundo uma ordem marcada pela desigualdade e pela explorao dos mais fortes sobre os mais fracos.

Rafael Miranda  parte de um crescente grupo de brasileiros que optaram por abandonar suas vidas para se juntar aos rebeldes apoiados pela Rssia que lutam pela independncia desta regio do Leste da Ucrnia conhecida como Donbass. Em maro havia sete brasileiros de diferentes regies do Pas  com diferentes objetivos e ainda mais diferentes motivaes  lutando lado a lado com os separatistas.

O grupo  heterogneo. Em maro juntava perfis to distintos quanto o de um soldado da Polcia Militar do Amazonas em licena no remunerada e o de um estudante de comunicao de uma universidade pblica de Minas Gerais. Contava ainda com um ex-militante de esquerda do Sul do Pas, de pouco mais de 50 anos de idade, e seu filho, um estudante universitrio de cerca de 20 anos. O peloto de brasileiros  integrado tambm por um ex-cabo do exrcito que atuava como segurana privado em Presidente Prudente (SP) e que ficou desempregado aps ser baleado na perna em um tiroteio. Em meados do ms passado, todos eram comandados por Rafael Lusvargui, um ex-soldado da Polcia Militar de So Paulo que foi preso durante as manifestaes contra a Copa do Mundo na capital paulista em 2014.

 Lusvargui foi o primeiro deles a ir para a Ucrnia se unir aos rebeldes. Chegou l em setembro, logo aps a percia da polcia paulista comprovar que a caixinha de achocolatado lquido com a qual foi preso nas passeatas continha apenas uma mistura de leite, acar e chocolate em p  e no material explosivo, como alegavam os policiais que o prenderam. Comecei a postar as fotos das aes que eu participava aqui na Ucrnia e rapidamente um monte de gente entrou em contato, querendo ajudar os rebeldes. Nem eu esperava por isso, conta Lusvargui, que se considera eslavo, j havia morado na Rssia e fala russo com bastante desenvoltura.

Rodolfo, ex-cabo do exrcito, de 27 anos, que trabalhava como segurana em Presidente Prudente (SP), chegou dois meses depois de Lusvargui. Ele, que prefere ser chamado de Magayver (porque resolvo tudo), conheceu Lusvargui por meio de uma pgina no Facebook de apoio aos separatistas. Criada pelo advogado carioca Raphael Machado, o grupo Frente Brasileira de Solidariedade com a Ucrnia se transformou em uma espcie de ponto de encontro e troca de informaes de brasileiros que desejam fazer parte da guerra. Machado j tem mais de sete mil seguidores na pgina e diz que, em poucos meses, cerca de 150 pessoas o procuraram atrs de informaes para entrarem na guerra.

Eu segui as recomendaes e deu tudo certo, diz Rodolfo, o Magayver. Vim para c para ajudar as pessoas que estavam sofrendo. Mas ele no nega que, desde a poca do quartel, sonhava participar de combates reais. Magayver gosta da guerra.

A conexo Brasil-Donbass funciona de forma simples. Os brasileiros compram passagem para Moscou e l so recebidos por uma pessoa ligada aos separatistas que os hospedam em um apartamento na capital russa. Em poucos dias, embarcam num nibus com outros voluntrios estrangeiros e russos, diretamente para Lugansk, uma das principais cidades da regio separatista. Ali o grupo  recepcionado por Rafael Lusvargui e encaminhando de imediato para Pervomaisk, uma tenebrosa cidade fantasma que j foi habitada por 60 mil pessoas. Danificada pelos bombardeios e praticamente abandonada pela populao civil, Pervomaisk  a porta para os combates  fica a menos de cinco quilmetros das trincheiras das foras armadas ucranianas. Rafael Lusvargui recebeu autorizao do batalho cossaco do qual faz parte para criar um peloto de reconhecimento e sabotagem batizado de Unidade Internacionalista Ernesto Che Guevara. A expectativa  de que pelo menos seis novos brasileiros cheguem a Pervomaisk nas prximas semanas.

A Guerra da Ucrnia  um conflito local com implicaes mundiais e tem atrado uma mirade de combatentes de todo o mundo. A despeito dos detalhes regionais, para muitos, este  um combate entre Leste e Oeste. Uma espcie de batalha final da Guerra Fria que foi prorrogada por trs dcadas. A Rssia ainda  um elemento importante no equilbrio geopoltico mundial e os Estados Unidos e a Unio Europeia querem enfraquec-la o mximo possvel para serem hegemnicos, diz o soldado da Polcia Militar do Amazonas que tambm luta ao lado dos rebeldes e no quer se identificar. Pede apenas para ser chamado de Al Hassan.

Ex-estudante de histria, vivendo na Ucrnia h pouco mais de um ms, Hassan tem um perfil distinto do tradicional PM brasileiro.  difcil ser policial militar, a PM  uma instituio reacionria, mas  um emprego, diz. Ele foi para a Ucrnia em busca de experincia em combate militar. Acredita que, em algum momento, grupos armados de extrema esquerda possam ressurgir no Brasil e na Amrica Latina em face  guinada  direita que muitos pases ameaam tomar. Quero estar preparado para fazer parte deles. Mas Hassan, assim como outros brasileiros do grupo na Ucrnia, est decepcionado. No h combate direto,  s artilharia. Voc raramente v o inimigo, reclama.

Quando comeou, a Guerra da Ucrnia parecia destinada a seguir as caractersticas dos conflitos atuais, como ocorre na Sria e no Iraque: foras assimtricas combatendo em ambiente urbano, utilizando tticas de guerrilha. No entanto, o farto equipamento militar disponvel tanto para as foras armadas ucranianas quanto para os rebeldes fez com que rapidamente as batalhas ganhassem cores muito semelhantes s da 1 Guerra Mundial, com front definido e batalhas travadas basicamente por artilharia.

Flix  outro nome fictcio - nunca tinha pego uma arma na vida quando chegou na Ucrnia trazido por seu pai. O primeiro tiro foi dado em um rifle AK-74, durante os cinco dias de treinamento bsico que todos os brasileiros recebem antes de ir para o front. Na terceira semana de maro, Flix estava em um apartamento ocupado pelos soldados rebeldes na cidade de Pervomaisk, recuperando-se de um princpio de hipotermia. Ele no suportou as temperaturas negativas que enfrentou durante os cinco dias passados nas trincheiras. A guerra de verdade  muito diferente do que a gente pensa, no tem nada a ver com o vdeo-game, diz ele, singelamente. No Brasil, Flix gostava de jogar Call of Duty e Medal of Honor, dois bestsellers do mundo dos vdeo-games de guerra. Mas eu no tenho ideologia, no gosto de nenhuma ideologia poltica.

J o pai de Flix se apresenta como um idelogo. Alberto  nome tambm fictcio  passou a vida militando em organizaes e partidos de esquerda no Brasil. Divergncias internas o fizeram desistir, ao menos por enquanto, da militncia. Alberto gosta de discorrer sobre qualquer assunto com explicaes longas e eloqentes. Cita nomes, dados e datas com impressionante preciso. Ele garante que no foi para a Ucrnia para se transformar em um combatente, embora tenha feito treinamento bsico militar e passado vrios dias nas trincheiras, participando de misses de reconhecimento das linhas inimigas. Se voc disser que eu peguei em armas, eu nego, dizia ele, em uniforme militar, ao lado de um rifle AK-74.

Flix e seu pai so considerados combatentes turistas pelos mais experientes, como Rafael, Lusvargui ou Magayver. Ao contrrio deles, os trs no se importam em mostrar o rosto ou dizer seus nomes. De alguma forma, esto recebendo um reconhecimento que nunca tiveram na vida. A populao local os considera heris e, por meio das redes sociais, so vistos quase como celebridades em um universo restrito, porm bastante ativo, de admiradores de seus feitos. Magayver, por exemplo, saiu do Brasil com 80 amigos no Facebook. Hoje os conta aos milhares. Na ltima semana de maro, em um raro passeio pelo centro de Donetsk, Rafael chegou a ser parado por um casal de senhores em um mercado de pulgas da cidade. Ao verem a bandeira brasileira bordada em seu uniforme, se emocionaram a ponto de derramarem lgrimas. Rafael, que considera como sua famlia apenas a me  a despeito de ter pai e irmos  tambm se emociona. Por alguma razo meus familiares no Brasil esto se orgulhando de tudo isso que estou fazendo, diz. Estou feliz.  

